[034] Aposentamos a realidade e esquecemos de avisar o cérebro.
Como as ferramentas sofisticadas de vídeo transformaram a verdade em um filtro opcional e nos obrigaram a duvidar dos nossos próprios olhos.
Lembro com nostalgia de quando “só acredito vendo” era o auge do ceticismo humano. Era o nosso carimbo final de garantia sobre a realidade. Se estava gravado em vídeo, tinha acontecido e ponto final. Mas essa máxima acabou de pegar o boné, pedir aposentadoria compulsória e sair de cena sem festa de despedida.
Com a chegada dessas ferramentas cada vez mais sofisticadas de vídeos e clones digitais, a realidade virou apenas uma sugestão de pauta na ilha de edição. O vídeo era o nosso último bastião da verdade depois que o Photoshop banalizou a fotografia. Agora, ele também perdeu o distintivo de autoridade.
Isso abre a porteira para um tipo de caos criativo que me preocupa. E não estou falando só de grandes manipulações políticas ou fake news de escala global. Falo do estrago no cotidiano, na vida comum. Pense em golpes de seguro, reputações destruídas no grupo da família ou provas de crimes que nunca existiram.
O artigo que li recentemente me lembrou de uma falha trágica no nosso design. Nosso cérebro ainda roda um software ancestral, programado biologicamente para acreditar naquilo que os olhos captam. É instintivo confiar na visão. Só que agora vamos ter que fazer um upgrade forçado e aprender a duvidar ativamente de tudo.
Talvez a grande mudança que estamos vivendo não seja apenas tecnológica. É uma mudança cultural profunda na nossa relação com a informação. A pergunta que define nossa era deixou de ser a clássica “isso aconteceu de verdade?”. Essa pergunta já nasceu morta no novo cenário.
A nova questão fundamental é um pouco mais cínica e absolutamente necessária para a sobrevivência mental. Agora temos que nos perguntar “quem é que ganha alguma coisa se eu acreditar nisso?”. O interesse por trás da imagem passou a valer mais do que a imagem em si.
Para nós que vivemos de criar, isso desenha um território novo e complexo. Se a imagem técnica pode ser qualquer coisa, a autenticidade crua e o contexto viram artigos de luxo. Talvez sejam os únicos ativos que a máquina ainda não consegue simular com a devida alma.
Estamos entrando na era da desconfiança como configuração padrão de fábrica. Vai ser exaustivo ter que filtrar tudo o tempo todo, eu sei. Mas talvez seja o único jeito de manter alguma sanidade quando seus próprios olhos tentarem te enganar descaradamente.




